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A cada dia mais e mais crianças chegam aos consultórios psicológicos, muitas vezes por encaminhamento das escolas. As queixas são as mais diversas e carregam um ponto em comum: a angústia dos pais por não saber como agir. Sentindo-se perdidos e pressionados esses pais procuram a terapia como a uma boia de salvação, embora não tenham tanta certeza assim de que é isso que seus filhos precisam.

As demandas mais comuns que surgem no consultório tem a ver com comportamento agressivo e baixo rendimento escolar. Com as salas de aula cheias e muitos objetivos a cumprir os professores precisam recorrer a ajuda externa para lidar com as singularidades das crianças. Indo na corrente social de rotular e categorizar os comportamentos, muitas vezes pedem avaliações para determinados transtornos, o que deixa os pais ainda mais angustiados e muitas vezes resistentes. Afinal, não é fácil para ninguém aceitar que seu filho pode ter problemas que estão fora da sua alçada.

Quando colocam uma criança no mundo os pais já têm muitos sonhos e objetivos desenhados para ela. Tem também, dentro de si, um modelo sobre ser pai ou mãe, construído de acordo com suas vivências e seus próprios sonhos. É por isso que é tão difícil pensar que seu filho precisa de um psicólogo. Para muitos pais ter uma criança que não vai bem na escola ou que bate nos coleguinhas é sinônimo de fracasso. Nesse sentido, meu primeiro passo é acolher esses pais e garantir: filhos não vêm com manual. Como psicóloga e ser humano, acredito fortemente que cada pessoa é o melhor que pode ser. E encaro como uma função importante empoderar esses pais e fazê-los ver que estão, sim, dando o seu melhor.

Mas não é por isso que não cobro comprometimento. As crianças passam pelo menos metade dos seus dias na escola e a outra metade com sua família. Como psicóloga, passo apenas 60 minutos por semana com elas. O comprometimento familiar é essencial para o andamento do processo, justamente porquê é com a família que a criança passará a maior parte do tempo, quando sair do consultório. As questões e habilidades que são trabalhadas na terapia, precisam ser treinadas e revistas no dia-a-dia para trazerem uma mudança real. É aí que entra o trabalho dos pais e a importância de que eles estejam sempre por perto, acompanhando, complementando e enriquecendo o processo. Além disso, são os pais que têm as maiores informações a respeito da vida e do desenvolvimento da criança, dados importantes para fazer uma avaliação completa e de qualidade.

A avaliação é um ponto chave no atendimento, pois é a partir dela que nós, profissionais, nos certificamos da necessidade do acompanhamento e traçamos objetivos e um plano terapêutico. É válido ressaltar que essa avaliação nem sempre inclui uma bateria de testes. A entrevista com os pais e as sessões iniciais com a criança são suficientes para uma boa avaliação, se forem realizadas com compromisso e de maneira meticulosa. O contato com a escola é igualmente importante e traz informações muito ricas sobre a criança em um ambiente diferente e longe da família.

No final, o que define a necessidade de um acompanhamento psicológico infantil, muito mais do que notas baixas ou comportamentos específicos, é o quanto tudo isso tem trazido sofrimento e prejuízos para a vida da criança. Uma criança que chora muito, tem atitudes impulsivas, medos excessivos ou dificuldade para socializar está tentando mostrar que há algo dentro dela que ela não está entendendo, e não sabendo como lidar usa as ferramentas que já conhece e estão a sua disposição. Observar o comportamento da criança é apenas o primeiro passo para tentar entender o que está acontecendo. Mas todas as questões apresentam explicações e razões muito mais profundas do quê o que conseguimos ver. Uma avaliação profissional é importante, mas muitas vezes estar por perto, ter paciência e dar o exemplo se mostram, também, soluções eficazes.

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